quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pela diferença de gêneros

“O que tenho feito é investigar essa parte de gênero. O que tenho descoberto é que isso é muito arraigado, essa cultura binária, essa divisão do mundo entre mulheres e homens é um dogma muito forte. Não se rompe isso facilmente. Desafiar esses códigos perturba todo o ambiente ao redor de você”.

A frase é do (excelente) cartunista Laerte, companheiro de Angeli e Glauco no antológico “Los Três Amigos” e criador do sarcástico “Piratas do Tietê”. Traços à parte, achei a declaração do artista – que decidiu vestir-se como mulher no dia-a-dia - um típico exemplo da realidade mundana que nos rodeia. O mundo-cão que prega a libertinagem no real sentido da palavra (desregramento, licenciosidade). Sinceramente, não me estranhou o fato de ele ter decidido se travestir de mulher (o terno cult é “cross-dressing”). O que me chamou a atenção na sua entrevista (concedida à Folha de S. Paulo) foi sua convicção ao considerar “a divisão do mundo entre mulheres e homens” como “um dogma muito forte”. Ora, faça-me o favor! Que pensamento intelectualóide é esse que busca ferir a lógica da realidade, do fato, enfim, da própria lógica?!

Será que Laerte não tem se visto no espelho ultimamente? No mundo existem homens e mulheres (aleluia!!!). Na dúvida, basta dar uma olhada dentro das próprias calças. Homens e mulheres são diferentes (aleluia!!!) e se ajustam perfeitamente nas suas diferenças. Não se trata de dogma ou de um sistema binário arraigado na mente das pessoas, como ele tenta qualificar, é fato. Aliás, que maravilha de fato!

Minha preocupação é pensar que declarações de artistas como ele, dono de uma legião de admiradores - entre os quais, muitos jovens -, comece a infiltrar em intelectos menos favorecidos a idéia de que se vestir como mulher é uma atitude “super-cabeça”, “super-natural”, afinal, “regras são feitas para ser quebradas, liberou geral, viva o samba-lê-lê e o resto é caretice do sistema”.

Veja esta outra declaração do cara: “O problema é a vida submetida a essa ditadura dos gêneros, a esses tabus que não podem ser quebrados. É você sentir que sua liberdade está sendo tolhida, que as possibilidades infinitas que você tem de expressão na vida, ao sair, ao se vestir, ao se manifestar, ao tratar as pessoas, seu modo, seu gestual, sua fala, tudo isso é cerceado e limitado por códigos muito fortes e muito restritos. Isso é uma coisa que me incomoda”.

A minha dúvida é: ele está incomodado com os homens que agem e gostam de agir como homem e com as mulheres que agem e gostam de agir como mulher, ou com o fato de ele se sentir reprimido por não poder se vestir de mulher sem causar estranheza nos outros? Se for a primeira opção, gostaria de registrar que minha natureza - e de todos que nascem com um órgão sexual masculino - é masculina e que agir como tal está arraigado (aí sim) em uma origem orgânica e, pode-se dizer, em um histórico social. Fora disso a coisa permeia o campo das escolhas de cada um. Logo, é inevitável discordar radicalmente do pensamento do genial cartunista de que “vivemos numa ditadura dos gêneros”. Em confronto com a visão bizarra de ver um homem vestido de mulher, não há como considerar bela a visão de uma mulher vestida decentemente como tal. Alguém aí há de concordar comigo.

Agora, se o problema for o fato de ele se sentir reprimido por não poder se expressar como gostaria de fazê-lo, vê-se que esse problema já está resolvido. Nesse caso, volto a dizer, não é o fato de o cartunista ter decidido se travestir, “como forma de expressão”, que me preocupa, mas a ameaça de, num futuro próximo, eu vir a ter meus direitos de hétero cerceados e minha boca amordaçada em nome do direito dos outros de defender que homens e mulheres “são iguais” e que o resto não passa de “um dogma”, “uma ditadura dos gêneros”.

É..., nada mais me espanta!    

5 comentários:

disse...

eu vir a ter meus direitos de hétero cerceados e minha boca amordaçada em nome do direito dos outros de defender que homens e mulheres “são iguais” e que o resto não passa de “um dogma”, “uma ditadura dos gêneros”.

É..., nada mais me espanta! (2)

Clovis olha isto:
http://mulheresabias.blogspot.com/2010/11/justica-inglesa-proibe-casal-hetero-de.html

disse...

Pr. Clovis, temos entrevista com o Pastor Alan lá no blog, dê uma força lá, pois o senhor será o próximo com certeza!

Eduardo Medeiros disse...

Clovis, tudo bem? É claro que eu entendi a sua colocação. Mas artista é assim mesmo, eles buscam sempre pertubar as ordens estabelecidas seja pela sociedade seja até pela natureza. Sem ter lido toda a entrevista, me pergunto se não é nesse o sentido que ele deu à sua perfomance.

Talvez ele queira dizer que usar calças e cuecas nada mais é que cultural. Que um dia, alguém estabeleceu que mulheres deviam usar saias para se "diferenciar" do homem.

Talvez ele esteja até dizendo que homens e mulheres são iquais enquanto seres humanos?

Fiz teatro amador durante muitos anos e sempre fiz exercícios teatrais que tinham como intenção quebrar o casulo do "normal", como por exemplo, andar imitando um bicho qualquer. Te garanto que isso é meio "libertador"...rsss espero que tenha entendido o que estou falando.

Quanto ao que o Laerte realmente quis dizer, ainda não entendi.

abraços

Clovis Cabalau disse...

Eduardo, Entendi o que você quis dizer e até concordo. Artista é assim mesmo, gosta de chocar, de experimentar, de ousar. O que me fez comentar sobre essa história foi a frase "divisão de mundo entre homem e mulher é um dogma muito forte". Aí ele forçou. Dogma?! Já que você leu a entrevista, vistes que ele admitiu sua bissexualidade, o que demonstra uma mente dividida com o "ser ou não ser, eis a questão". Enfim, a vida é dele, faz ele o que quiser dela. Não é verdade?
Abraço.

Alberto Couto Filho disse...

Pastor Clovis,
A paz do Senhor Jesus.

Freud explica: O desenvolvimento da civilização humana fundamenta-se, também, na renúncia progressiva dos instintos.
Pois é.

Um jornalista maranhense ensinou-me que, por saber fiar, não devo desperdiçar fio.
Perguntei-lhe: O que isto significa?
Respondeu-me: Você sabe falar, portanto, não desperdice palavras.

Calei-me.

Abençoe-te Deus, abundantemente

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